Amanhã é 23...

(Se eu não escrever, eu engulo. E o que eu escrevo também tem veneno.)

7.4.09

[Fazendo jus.]

Segundo dia de Dragão Fashion 2009. Tarcísio Almeida abriu a noite com um desfile com clima de suspense, nostalgia e introspecção: muito preto, cinza, tons crus, sombras e tricôs. Técnicas de moulage, construções quase despretensiosas (ou pretensiosas demais) e o paradoxo pesado/leve. O conceito, por mais subjetivo que fosse, se fez presente na sala, vide trilha sonora e a modelo de lingerie cereja desfazendo o tricô com uma velha roca que se mexia "sozinha".



A noite seguiu com Walério Araújo, Rock Medieval e seu mix (naturalmente) extravagante: pérolas, caveiras, cartolas (ora vazada, como que só o "esqueleto", ora totalmente coberta de paetês), estampas temáticas (Kiss, Kurt Cobain, Marilyn Manson...), laços e muito brilho. O preto, soberano, foi complementado pela sensualidade vampiresca do vermelho e pela elegância clássica do pérola. Coletes, babados e até amarrações laterais altas ultra sensuais, além de meias e luvas, marcaram o desfile.


(continua...)

31.10.07

Para que serve o amor?

Fui apresentado recentemente a uma cantora francesa absolutamente cheia de vida, embora tenha falecido em 1963. Confesso que pouco ouvira falar de Edith Piaf. Sequer lembro de já ter escutado alguma de suas canções - acredite, eu lembraria. O fato é que me surpreendi ontem, quando assisti a "Piaf - Um Hino ao Amor", e descobri alguém disposto a fazer qualquer sacrifício pela sua arte. Porque Piaf tinha uma voz rouca, forte, inconfundível. E tinha muito amor também. Era ousada, teimosa, independente - ainda que frágil. Tinha consciência da grandeza do seu talento e sabia desde cedo a que estava destinada. Ressignificações à parte, fica bastante claro a quem assiste ao filme que ela sabia onde queria chegar - e, naturalmente, chegou.
O que mais impressiona em Piaf é a aparente facilidade com a qual emociona quem a ouve. Sua voz é de uma intensidade elegante, de uma sinceridade dramática, de uma vivacidade excepcional. É fato que, se cada um é para o que nasce, Edith Piaf nasceu definitivamente para cantar.
Após viver durante certa época da infância em um bordel, ficar cega, ainda criança, temporariamente, ver a filha morrer de meningite aos dois anos de idade, sofrer um acidente de carro e tornar-se dependente de morfina, veio a glória: grande popularidade, sucesso internacional, músicas que se tornaram clássicos. Entre sonhos, quedas, desafios e vitórias, resta a pergunta: para que serve o amor*, Edith?

* "A quoi ça sert l'amour", música gravada por Edith Piaf em 1962.

3.8.07

Divagando sem gênero

Aconteceu-me uma coisa. Depois, aconteceu-me outra. Uma atrás da outra. Ligeiras. Vagas. Anônimas. Não dediquei a atenção merecida a nenhuma porque de certo ando pensando demais. Que me desculpem, coisas. Quando se pensa demais, é bem verdade que o mundo se finge de morto. Egocentrismo. E ouvi dizer que as coisas não funcionam assim: querer nem sempre é poder e o pote de ouro no fim do arco-íris é lorota. Acreditar faz parte da mágica.
Dia desses, entrei sorrateiramente no quarto escuro aproveitando-me do sono do meu pai. Pois era tarde, e por ser tarde ele dormia. E pelo mesmo motivo eu não. Sem qualquer dificuldade, à meia-luz, avistei a pequena caixa de bombons. Solitária, carente, aberta. Aproximei-me sem fazer barulho, pegar um era o plano. E só mais um, talvez. E só mais outro, quem perceberia? Eu, um gatuno. A noite, minha cúmplice. Pois meu pai acordou exatamente na hora em que a ânsia de pegar o primeiro me consumia forte. A tendência foi disfarçar, mas nem sempre sou bom ator de improviso. Ocorre que eu não podia sair do quarto escuro de mãos vazias. Tinha um objetivo. Objetivo sujo, mas meu. Disse um "boa noite" desajeitado, esbocei um sorriso, dei a entender que estava procurando algo, fingi surpresa ao ver a tal caixa e, como quem se acha num direito que não existe, peguei. Peguei um bombom. Não sairia do quarto como entrei. Saí com meu troféu. Minutos depois eu comeria meu troféu.
Faz-se cada coisa por chocolate.


(Não consigo mais escrever. Será falta de Clarice, de tristeza ou de mim mesmo?)

8.5.07

Pequena dúvida

Do sangue, quis a gota. Do jogo, quis a prova. Da verdade, esqueceu-se. Um ou dois? O velho gosto doce na ponta da língua... Fugiu, pois, ao caso do acaso, quase sem sorte, quase sem companhia, quase sem vontade. O que procurava era um motivo, um único que justificasse o que não era, mas que sem atraso viria a ser. Lama. Ora flores, ora amores: vinham e iam, o abstrato reinava e só ele pagava para ver. Aprendera a ter coragem, enfim. Um ou dois? Mas a dúvida queimava o íntimo, o pouco que tinha virava cinza e o sol já afundava no horizonte. Via tudo em verde e vermelho, amelisticamente psicodélico. Seria tarde demais para desistir? Não: o tempo só passa para quem consegue encostar nele. A hora de fazer e aparecer aproximava-se, alguém o empurraria à força para o palco sem qualquer ensaio. Um ou dois? Pânico. Quis mais do que já era e do que já tinha, mas não podia. Não mais. O prazo era masoquista: ia morrendo e se divertindo. Uma nostalgia quente o consumiu, pediu um copo de cólera e foi comer, agora frio, o prato pelo qual tanto esperou: o da vingança. Um ou dois? Um ou dois? Um ou dois? Dois: um no peito e um na cabeça. Suor. Sangue. Morte.

25.3.07

O Albino

A noite ensaiava os primeiros passos quando chegamos à igreja. Ritual católico, batizado de criança, formalidades: coisas das quais não se pode dizer que sou exatamente um grande fã. Logo avistei um homem, mas não um homem comum. A primeira sensação que tive foi de repulsa: pessoa feia, estranha. Mas em seguida veio a pena. Senti pena de um homem tão diferente, que nasceu sem culpa alguma. Seu olhar carregava um mistério amargo e antigo. Parecia atordoado: olhava para os lados rapidamente, escrevia coisas como que mecanicamente em um papel apoiado na barriga. Estava mal vestido e parecia carregar um peso maior que ele; o peso de uma culpa, talvez, porque caminhava olhando para baixo. Ou, talvez, o de uma rejeição - nunca irei saber ao certo. Era albino e, portanto, branco. Cabelo claríssimo, seco, mas a pele nem tanto: muito avermelhada, manchada de um vermelho sádico, castigada pelo sol. O rosto era de uma assimetria assustadora, quase monstruosa. As sobrancelhas apresentavam-se pouco visíveis; o nariz, achatado. E, meu Deus, como aquele homem me intrigou. Vez ou outra, arriscava-me a olhar para ele. Mas, ao mesmo tempo em que eu me sentia incrivelmente intrigado, muito ele me amedrontava. Intimidava-me com força - e provavelmente sem querer. Quando o batizado se aproximava do fim, pude vê-lo fechando as janelas do fundo da igreja. Fechava como se fosse algo rotineiro. Fechava porque devia, porque era para ser assim. A clareza da sina de algumas pessoas me causa inveja.

18.2.07

Quero um amor com gosto de sábado. Nem alguns quilos a menos, nem a descoberta da cura da AIDS, nem mesmo ganhar na loteria: se eu pudesse fazer um pedido, somente um, eu pediria um amor com gosto de sábado. Porque o sábado, o santo sábado, carrega em si mais do que a gente vivencia uma vez por semana. Por trás dele, vem muito mais do que todos imaginam (e do que, no fundo, esperam). O sábado encanta, pisca, assovia e disfarça: seduz. Depois, ele chama para a dança da vida como se fosse por pouco, querendo atenção. E consegue, porque merece. O sábado é sensível, é lúdico, é sarcástico. Ele carrega a bandeira do imprevisível, não se mistura fácil e sabe ser invisível para quem não o quer ver. O sábado surpreende, desconhece clichês e adora ser o que é. Se necessário, ele finge auto-confiança e nada teme. O sábado não decepciona. Por essas e outras, conto sem pedir segredo: Quero um amor com gosto de sábado.

21.12.06

Era vontade

A mãe costumava dizer que era feio, mas inteligente. Ele não ligava. Crescera ouvindo isso de todo mundo - a diferença é que, fora a mãe, ninguém mais o achava inteligente. Inclusive ele.
Quando via um avião, saía correndo: não era medo. Comia rápido e não tinha amigos. Desenhava, desenhava, desenhava e não cansava. Da data do seu aniversário não lembrava; festa nunca tivera. Gostava da lua.
A mãe dizia que o pai morrera na guerra, mas ele não acreditava. Não acreditava em ninguém, tinha repulsa ao espelho. De certo, o pai havia largado tudo antes dele nascer, talvez por causa dele. Chorava sozinho.
Quando via um caminhão, saía correndo: não era medo. Certa vez, encontrou a foto de um homem no guarda-roupa da mãe. Achou que se parecia com ele, apertou a foto contra o peito como se fosse para sempre. Em outro dia, viu o mesmo homem na capa de um disco antigo.
A mãe era costureira, queria que o filho fosse doutor e não o deixava ir à escola. Acreditava num futuro bom, não sabia o que era utopia. Dava chá para o filho. Ele não gostava de chá.
Quando via uma bicicleta, saía correndo: não era medo. Incerto dia, pegou a bicicleta do vizinho, pedalou para o nada e nunca mais se ouviu falar dele.

29.11.06

Bom ator

Fez-se presente um amor que nunca existiu. Bom ator, ele: arrancou-me prontamente algumas lágrimas sem esforço. Trouxe com ele o medo, e confesso que tive a nítida impressão de estar sendo apresentado a esse medo pela primeira vez. Este não apertou minha mão nem quis papo. Chegou logo me envolvendo, me cercando, me engolindo num sopro inverso. Pairou à minha frente soberano, elegante, nefasto, ciente de sua missão. Eu e ele, cara a cara.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e por ele senti estremecer meu corpo num grito interno e rouco. Roubou-me as poucas gotas de razão existentes no vidro do bom senso, que se quebrou após secar. Ele se mostrou experiente; eu, impotente. E da solidão dilacerante acreditei fazer parte por quase um segundo. Acreditei, vivi e não vi: imaginei. Criei mais do que podia, do que devia e do que sabia. Era o exaspero: o desespero e a ironia de, mais uma vez, perder-me na linha tênue que separa realidade de ilusão.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e, no início, senti profunda simpatia por ele. Tolo, cedi à tentação acreditando que não cairia naquele velho golpe, bem como um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. Até mais de duas, se duvidar. Caí também. Desmoronei precipício abaixo sem imaginar aonde iria. Onde cheguei não sei, mas é certo que bati a cabeça e, naquele momento, algo errado virou certo.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e por ele sofri, engoli seco e fugi de mim. Quis explicar que tenho mil faces e que não conseguira mostrar a melhor. Supliquei mentalmente por uma nova chance, e minha resposta foi o eco. Desejei voltar no tempo e lembrar-lhe de que até os astros conspiravam a nosso favor. Em vão. A sorte que a sorte me trouxe pediu-me silêncio, e no silêncio fiquei até dar-me conta de que, enquanto o medo se fizer presente, será sempre um amor que não existe - e que, provavelmente, jamais irá existir.