Bom atorFez-se presente um amor que nunca existiu. Bom ator, ele: arrancou-me prontamente algumas lágrimas sem esforço. Trouxe com ele o medo, e confesso que tive a nítida impressão de estar sendo apresentado a esse medo pela primeira vez. Este não apertou minha mão nem quis papo. Chegou logo me envolvendo, me cercando, me engolindo num sopro inverso. Pairou à minha frente soberano, elegante, nefasto, ciente de sua missão. Eu e ele, cara a cara.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e por ele senti estremecer meu corpo num grito interno e rouco. Roubou-me as poucas gotas de razão existentes no vidro do bom senso, que se quebrou após secar. Ele se mostrou experiente; eu, impotente. E da solidão dilacerante acreditei fazer parte por quase um segundo. Acreditei, vivi e não vi: imaginei. Criei mais do que podia, do que devia e do que sabia. Era o exaspero: o desespero e a ironia de, mais uma vez, perder-me na linha tênue que separa realidade de ilusão.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e, no início, senti profunda simpatia por ele. Tolo, cedi à tentação acreditando que não cairia naquele velho golpe, bem como um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. Até mais de duas, se duvidar. Caí também. Desmoronei precipício abaixo sem imaginar aonde iria. Onde cheguei não sei, mas é certo que bati a cabeça e, naquele momento, algo errado virou certo.
Fez-se presente um amor que nunca existiu, e por ele sofri, engoli seco e fugi de mim. Quis explicar que tenho mil faces e que não conseguira mostrar a melhor. Supliquei mentalmente por uma nova chance, e minha resposta foi o eco. Desejei voltar no tempo e lembrar-lhe de que até os astros conspiravam a nosso favor. Em vão. A sorte que a sorte me trouxe pediu-me silêncio, e no silêncio fiquei até dar-me conta de que, enquanto o medo se fizer presente, será sempre um amor que não existe - e que, provavelmente, jamais irá existir.